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Distribuidora investigada por ligação com PCC tem contrato de R$ 168,8 milhões para abastecer frota da PM do RJ

A Rede Sol Fuel Distribuidora, empresa alvo de buscas na Operação Carbono Oculto, que investiga a estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC), mantém um contrato milionário com o governo do Rio de Janeiro para abastecimento da frota da Polícia Militar.

Quase 1 ano após a operação que movimentou o mercado financeiro de São Paulo, na Avenida Faria Lima, e depois de questionar a PM sobre o motivo de a corporação ainda manter contrato com uma empresa investigada por ligação com o crime organizado, a corporação disse que o contrato é legal, mas que vai fazer uma nova licitação para o abastecimento das viaturas.

O Palácio Guanabara não quis comentar os questionamentos da reportagem.ilitar.

O contrato de R$ 168 milhões com a distribuidora foi assinado em março de 2025, na gestão do então secretário Marcelo de Menezes Nogueira, e vale até 2027. No começo deste ano, Menezes deixou o posto para se candidatar a deputado estadual.

Pelo contrato, a empresa deve fornecer 32 milhões de litros de gasolina e mais de 4 milhões de litros de diesel S10, totalizando quase 37 milhões de litros de combustíveis para os postos internos da corporação.

A gasolina representa R$ 147,8 milhões, enquanto o diesel responde por R$ 20,9 milhões.

O contrato não especifica quantos veículos ou viaturas serão abastecidos. Atualmente, a corporação possui cerca de 5 mil veículos.

Segundo o edital, o objeto prevê o fornecimento de combustíveis para toda a frota atendida pelos 70 postos internos da PM, nos batalhões, com sistema de gerenciamento e controle de abastecimento sem intervenção humana.

Origem do dinheiro

Desde que foi assinado, ainda na gestão do ex-governador Cláudio Castro (PL), o acordo passou por pelo menos 3 alterações para incluir novas fontes de recursos orçamentários — ou seja, de onde viria o dinheiro para o contrato.

Em julho de 2025, foram acrescentados R$ 456 mil provenientes de um convênio entre a PM e a Prefeitura de Barra do Piraí.

Em outubro de 2025, outra alteração incluiu R$ 8,49 milhões de taxas destinadas ao Fundo Especial da PM.

Já em novembro de 2025, uma 3ªalteração acrescentou R$ 1,77 milhão em recursos do próprio Fundo Especial da PM.

Além dos apostilamentos financeiros, a Secretaria de Polícia Militar firmou um termo aditivo com a Rede Sol para prorrogar o prazo de instalação de equipamentos fornecidos em comodato e remanejar dois tanques de combustível entre batalhões.

O contrato também prevê a possibilidade de prorrogação sucessiva, podendo alcançar até 10 anos de duração.

De acordo com o Ministério Público de São Paulo, a Rede Sol é uma das empresas cujas notas comerciais foram adquiridas pelo Mabruk II Fundo de Investimento, no valor de R$ 30 milhões. O fundo é um dos 40 investigados pela Receita Federal como financiadores das aquisições do PCC no mercado de combustíveis. A operação foi apontada pelo MP como “instrumentalização da lavagem de capitais”.

Gasolina batizada

Meses antes, em maio do ano passado, o 38º BPM (Três Rios) identificou irregularidades no combustível fornecido pela Rede Sol. O caso resultou na abertura de um processo judicial.

Na ocasião, um policial militar flagrou e apreendeu um caminhão da distribuidora que transportava gasolina com 37% de etanol anidro — índice 10 pontos percentuais acima do limite legal de 27% estabelecido pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).

A irregularidade foi confirmada por laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), da Polícia Civil, encaminhado à 108ª DP (Três Rios). O processo tramita sob sigilo na 2ª Vara da Comarca de Três Rios, que abrange também Areal e Levy Gasparian.

Segundo o ex-secretário da Polícia Militar, a empresa foi notificada e multada em mais de R$ 1 milhão. Além disso, de acordo com Menezes, a Rede Sol foi proibida de participar de licitações no município de Três Rios pelo período de um ano.

Contrato rescindido com prefeitura

No começo do ano, a Prefeitura do Rio decidiu suspender a contratação da empresa Rede Sol, uma das vencedoras da licitação para fornecimento de diesel aos mais de 700 ônibus articulados da estatal Mobi-Rio, até a conclusão das investigações da Operação Carbono Oculto.

Procurado pela reportagem, o ex-governador Cláudio Castro afirmou que a responsabilidade pelo pregão cabe ao então secretário da Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes. Castro disse ainda que não irá comentar o caso.

Por sua vez, o ex-secretário da Polícia Militar afirmou que o contrato foi firmado por meio de pregão eletrônico, o que permitiu a participação de outras empresas. Ele ressaltou que a Rede Sol tinha a documentação em dia, “não houve direcionamento” nem interferência para favorecer a vencedora da licitação.

Ainda segundo Menezes, mesmo após a Operação Carbono Oculto, “não havia fundamento para romper um contrato essencial para o funcionamento” da instituição.

O ex-secretário acrescentou que a empresa Rede Sol fornece combustível para diversos órgãos públicos, como a Presidência da República, o Exército e a Marinha, e declarou que está “tranquilo”, destacando que “não poderia estabelecer uma pré-condenação”. O ex-secretário também enviou uma nota.

A PM afirmou que a contratação é legal e informou que a empresa cumpriu todas as exigências previstas no edital e na legislação.

Segundo a PM, a contratação ocorreu antes da divulgação de informações sobre investigações envolvendo a empresa e, à época, não havia elementos que impedissem a formalização do acordo.

Mas, para não pôr em risco à continuidade do serviço, a corporação tem em curso uma nova licitação para garantir o abastecimento dos veículos da corporação.

A PM não respondeu sobre valores já pagos, volume entregue, eventuais penalidades aplicadas ou se a empresa continua abastecendo normalmente a frota.

A reportagem procurou a Rede Sol, que, até a publicação desta reportagem, não havia se manifestado. À época da Operação Carbono Oculto, a empresa informou estar à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos. Disse ainda que repudia qualquer ilação a respeito de ligações com empresas, fundos ou pessoas vinculadas a atividades ilegais.

Fonte: G1

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