A escadaria verde, amarela e azul da Rua Eduardo Jansen, próximo à Praça Mauá, no Centro do Rio de Janeiro, já faz parte da paisagem da região há 8 Copas do Mundo. Conhecida por moradores, turistas e por quem percorre roteiros históricos da Zona Portuária, ela ganhou uma nova dimensão recentemente após se tornar um hit nas redes sociais.
O charme da pintura na ruela tem sido explorado nas últimas semanas por artistas como Xande de Pilares e Ludmilla, além de inúmeros influencers. O aumento repentino da visibilidade transformou a vila residencial em destino para visitantes de diferentes bairros e cidades. Segundo moradores, nos fins de semana algumas pessoas chegam a esperar 2 horas para conseguir uma foto no local.
A repercussão trouxe orgulho para quem mantém a tradição desde 1998, mas também alterou a rotina de quem reside no local. Para lidar com o novo fluxo de visitantes, os moradores estabeleceram normas de convivência e formas de organizar o espaço sem interromper a visitação.
Embora os moradores afirmem gostar de ver a escadaria reconhecida e admirada, eles dizem que a popularidade repentina trouxe desafios para uma rua essencialmente residencial.
Segundo a comunidade, antes da viralização, era comum que os moradores passassem parte do dia sentados nas portas das casas, conversando nas janelas ou acompanhando as crianças brincando na rua.
Com o aumento do fluxo de visitantes, essa dinâmica mudou.
“Não é ruim que as pessoas conheçam a rua e admirem o lugar. O problema é quando falta consideração com quem mora aqui. Aqui vivem idosos, crianças e famílias inteiras”, relatou uma moradora.
Os moradores afirmam que têm buscado formas de equilibrar a presença dos turistas com a preservação da rotina da comunidade.
Guia reúne orientações para visitantes
Na entrada da vila, um guia reúne informações sobre a história da escadaria e recomendações para quem visita o local.
Entre as orientações estão pedidos para falar baixo, não jogar lixo no chão, não filmar moradores sem autorização e não trocar de roupa dentro da vila.
Segundo os moradores, as recomendações surgiram após situações registradas desde que a escadaria ganhou destaque.
Uma orientação que chama a atenção é a que pede para que visitantes não troquem de roupa no local. De acordo com a comunidade, alguns turistas passaram a utilizar a rua de “provador” antes das sessões de fotos, o que gerou desconforto entre os moradores.
Também houve relatos de pessoas fotografando o interior das residências sem autorização.
A artesã Leda Teodoro, que vive há anos na Rua Eduardo Jansen e vende peças de crochê na janela de casa, afirma que já passou por esse tipo de situação. Segundo ela, uma turista chegou a fotografar o interior de sua residência sem autorização.
“A mulher estava aqui dentro, até focou na minha cozinha. Não foi nem do crochê. A mulher estava aqui dentro, tirando foto. Aí eu falei que a gente tem que arrumar um jeito desse lugar aqui não ficar tão cheio… Porque se não, eu tenho que ficar com a minha casa toda fechada”, contou.
Segundo os moradores, o objetivo das orientações não é restringir a visitação, mas garantir que a convivência entre turistas e moradores aconteça da melhor maneira possível.
Tradição começou em 1998
A história da escadaria começou durante a Copa do Mundo de 1998, quando a artista e moradora Márcia Regina criou a 1ª pintura inspirada nas cores da bandeira brasileira. A decoração chamou a atenção dos moradores da vila e acabou se transformando em uma tradição da Rua Eduardo Jansen.
Desde então, Márcia é responsável pelos desenhos que dão identidade à escadaria. Há 28 anos, ela lidera a renovação da decoração a cada Copa do Mundo, promovendo alterações nos desenhos e criando novos elementos para a escadaria.
As tintas utilizadas são custeadas pelos próprios moradores, e a escadaria costuma ser repintada a cada 4 anos. Segundo a comunidade, esta é a 1ª vez, em quase 30 anos de tradição, que o local registra uma movimentação tão intensa de visitantes.
Antes da viralização, a rua já recebia turistas, mas em um fluxo mais organizado. Segundo os moradores, era comum a presença de grupos acompanhados por guias turísticos que incluíam a escadaria nos roteiros da Pequena África e de outros pontos históricos da Zona Portuária.
Limpeza e conservação ficam por conta dos moradores
Além da decoração, a conservação da rua também é realizada pela própria comunidade.
Segundo os moradores, a limpeza da vila é feita pelos residentes, que também cuidam da manutenção das pinturas e dos espaços comuns. Eles afirmam que equipes da Comlurb não costumam realizar serviços de limpeza no interior da vila.
Mesmo com o aumento do número de visitantes, os moradores seguem responsáveis pela preservação do espaço que ajudaram a construir ao longo das últimas décadas.
Mãe e filha, Maysa Marques e Ângela Marques, moradoras de Diadema, no ABC Paulista, incluíram o local no roteiro de uma viagem ao Rio após conhecerem a escadaria pelas redes sociais. As duas estão há uma semana na cidade e disseram que a visita à Rua Eduardo Jansen já fazia parte do planejamento da viagem.
“ Quando estávamos programando a viagem, já tínhamos visto fotos na internet e no Instagram. Depois vimos também o perfil da própria escadaria e fomos colocando o local no nosso roteiro. Achei muito legal ver a participação dos moradores em tudo isso”, contou Maysa.
A movimentação também tem gerado reflexos positivos para alguns moradores da vila.
Além de acompanhar a mudança na rotina da rua, Leda passou a receber mais visitantes interessados nas peças de crochê que expõe na janela de casa. Produzidos artesanalmente por ela, os trabalhos incluem roupas, acessórios, peças feitas à mão, com preços que variam de acordo com cada produto.
Com o aumento do fluxo de turistas, mais pessoas passaram a parar para observar os trabalhos expostos e conversar sobre o processo de produção das peças.
Recentemente, a vitrine ganhou um cliente ilustre. Durante a gravação do clipe da música “Vento”, lançado nesta semana, o cantor Xande de Pilares esteve na escadaria e, segundo Leda, comprou todas as peças de crochê que estavam disponíveis para venda.
A cantora Ludmilla também visitou a escadaria e tirou fotos.
Fonte: G1
